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SONORIDADES MÚLTIPLAS: PRÁTICAS CRIATIVAS E INTERAÇÕES POÉTICO-ESTÉTICAS PARA UMA EDUCAÇÃO SONORO-MUSICAL NA CONTEMPORANEIDADE

Consiglia Latorre
Artista, educadora, pesquisadora. Realizou pós-doutorado na Unesp com o tema Práticas Criativas e Voz. Doutora em Música (UFC e Nova de Lisboa), mestre em Artes pela UNESP, bacharelado em Artes Visuais (Faap e Mackenzie). Tem experiência nas áreas de Música, Artes Cênicas, Artes visuais, Audiovisual e Dança, com ênfase em Canto, Criação e Improvisação, História da Música Popular Brasileira, Cenas Musicadas, Educação Sonora, Desenho de Som e Trilha Sonora, atuando principalmente nos seguintes temas: didática, performance e estética. Na produção artístico-pedagógica, destacam-se: CD solo Tempo da Delicadeza (selo SescSp); a criação e direção artístico-pedagógica do Festival Música na Ibiapaba; trilhas e preparação sonoro-cênico-musical para o Teatro Máquina e grupo Andanças, no Ceará. Professora do Instituto de Cultura e Arte ICA-UFC, coordena o grupo de pesquisa interdisciplinar Sonoridades Múltiplas desde 2012. E-mail: consiglialatorre@ufc.br.





Ao longo de 10 anos, o grupo Sonoridades Múltiplas, sob coordenação da Profa. Consiglia Latorre, propôs práticas artístico-pedagógicas de processos criativos sonoro-musicais, com destaque para a improvisação livre, potencializadas pela ampliação da escuta diversificada. Tais práticas proporcionaram o desenvolvimento de possibilidades inventivas no âmbito do universo cênico-sonoro-imagético, via interdisciplinaridade, enfatizando a expressão individual e coletiva de artistas/educadores e realizadores em formação.

O objetivo maior tem sido investigar o alcance dessas práticas, à luz das grandes mudanças do pensamento contemporâneo, com fortes ressonâncias em vários domínios, junto a estudantes dos cursos de Licenciatura em Música, Teatro e Dança, e dos cursos de Bacharelado em Cinema/Audiovisual e Dança do ICA-UFC.

Visou-se, com isso, ao desenvolvimento individual e coletivo do potencial perceptivo e expressivo desses artistas em formação, mediante saberes produzidos de modo interativo por ações empreendidas em ateliês/laboratórios e performances públicas, assim como suas ressonâncias multiplicadoras em outras situações de ensino/aprendizagem e projetos artísticos.

Nos movemos guiados pela pergunta: até onde podem chegar práticas criativas quando respiram o ar inquieto da contemporaneidade? Atravessamos Música, Teatro, Dança, Cinema e Audiovisual, deixando que essas linguagens se contaminassem delicadamente, como rios que, ao se tocarem, se reconhecem.

Nos ateliês, nos pátios, nos museus, nas salas de aula, gestamos saberes que não cabem em molduras fixas: saberes que se desdobram em corpos, ressoam em vozes, vibram em imagens e retornam transformados em outras práticas, outras aprendizagens, outras potências.

A pesquisa nasceu de duas pulsações que se entrelaçam: a urgência da docência, que busca caminhos férteis para uma educação sonoro-musical viva, e o desejo dos artistas em formação – alguns iniciantes, outros já marcados por vivências diversas – de encontrar, na criação, respostas para as suas inquietações mais íntimas.

Ano após ano, as investigações deixaram rastros: círculos de canto e movimento, paisagens de Caymmi reinventadas, ventos de Manoel de Barros soprando sobre corpos, jogos sonoros, improvisações que se espraiam como ondas, fluxos que atravessam pátios e corredores, cidades que nos habitam e que habitamos.

2010/2011 – O grupo Poéticas e Estéticas das Artes foi o embrião do Sonoridades Múltiplas, envolvendo professores, alunos e alunas dos cursos de Teatro, Música e Cinema e Audiovisual do Instituto de Cultura e Arte da UFC, com as performances Jogos Sonoros-Imagéticos e fragmentos de Trans For Mar. Participação especial das professoras Juliana Rangel, Shirley Martins e Cristiana Parente.

2012/2013 – O grupo pesquisou som, movimento e imagem com alunos e professores de Teatro, Música e Cinema e Audiovisual do ICA-UFC, resultando nas performances: Em torno do Vento (Manoel de Barros), ...bem molhadinho de chuva (Gilberto Gil), Sons da Imagem e Percursos Sonoros: fragmentos e simultaneidade.

2014 – O Sonoridades Múltiplas mergulhou no universo sonoro-imagético de Dorival Caymmi para realizar a performance Delicado Caymmi, com alunos e professores de Teatro, Música e Cinema e Audiovisual do ICA-UFC.

2015 – O grupo recebeu alunos do curso de Dança para se somar aos de Teatro, Música e Cinema e Audiovisual, realizando diversas vivências de improvisação livre com som, movimento e imagem, e apresentando nos Encontros Universitários a performance Orquestra de Improvisadores.

2016 – O grupo aprofundou a pesquisa com sons, cena, movimento e imagem e propôs fluxos de improviso realizados no pátio do Instituto de Cultura e Arte, trazendo a improvisação para o cotidiano do ICA e envolvendo o público em geral. Música Circular.

2017 – O Sonoridades Múltiplas navegou pelo universo de Ulisses e propôs uma performance com alunos/alunas dos cursos de Dança, Teatro e Música, no Museu da Imagem e do Som do Ceará.

2018 – O grupo continuou o processo de fluxo de improvisação e, entre várias vivências, criou periodicamente momentos de improvisação livre envolvendo Música e Movimento, com alunos/alunas de Dança e Música e participação especial da professora Emyle Daltro. Timbele – improviso de voz, percussão corporal e movimento.

2019 – O Sonoridades Múltiplas contou com a cooperação da Profa. Emyle Daltro na pesquisa com estudantes de Música, Dança e Teatro, realizando a investigação Fortalezas: múltiplas cidades que nos atravessam.

Em cada ciclo, expandimos a escuta: do detalhe ao todo, do silêncio ao turbilhão, do gesto mínimo à cena compartilhada.

E foi assim que compreendemos: criar é também formar. A cada prática, exercitamos não só a percepção, mas a possibilidade de ser – ser crítico, ser sensível, ser múltiplo, ser presente. É pela coexistência de contrastes, ambivalências, descontinuidades e sobreposições que aprendemos a reconhecer o mundo contemporâneo e a responder a ele com poesia.

Reside certamente, nas práticas criativas empreendidas pelos intérpretes/investigadores e demais atores envolvidos, um grande desafio: o estímulo para perceber um mundo prenhe de contrastes, ambivalências, sincronicidades, descontinuidades, sobreposições, fluxos inacabados, flexibilidade, aqui/agora, uno/todo – levando-nos a novas experiências poético-estéticas, em um grande exercício de percepção e expressão pela coexistência de diversos imaginários cênico-sonoro-imagéticos. Um mundo de múltiplas sonoridades e de múltiplas escutas.

O projeto pedagógico do ICA, ao aspirar à excelência interdisciplinar, torna-se o palco natural onde esses encontros podem germinar. Que este lugar continue a se expandir em direção às linguagens que o constituem, acolhendo a multiplicidade como força criadora.

E, ao pulsar dentro de uma universidade pública, essa pesquisa artística afirma um princípio essencial:
a arte é patrimônio comum,
a educação é horizonte,
e a invenção é um gesto que se compartilha.