água, flores e anjinhos: rastros de vocalidades poéticas nas artes da cena
Juliana Rangel
Professora da área de Voz nas Artes da Cena do Curso de Teatro-licenciatura e do Mestrado Profissional em Artes (ProfArtes), no Instituto de Cultura e Arte (ICA), UFC. Tem pós-doutorado em Performatividade da Voz na Escola de Teatro e Cinema (ESTC-Lisboa/ CIAC- Algarve) com o projeto VOCALIDADES EXPANDIDAS EM ELOS: práticas poético-vocais na imersão e interseção corpo, ambiente e esquecimento. Doutorado em Educação, eixo Ensino de Música, pela Universidade Federal do Ceará (2014). Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (2007). Graduação em Fonoaudiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001). Tem publicado artigos em diversos periódicos e livros qualificados. Integra o grupo de pesquisa LabCenas UFC-CNPq (desde 2020). Pesquisa e orienta temáticas relacionadas a processo de criação, pedagogias da voz nas artes da cena, corpo-sensório-vocal, estado de escuta, ambiência sonora da cena, processos de ensino e aprendizagem na educação formal e não formal em artes. Integrou o grupo Rapsódia de Teatro (BA) de 2001 a 2010 e integrou a equipe de criação de diversos espetáculos de Teatro e Dança. E-mail: julianarangelfp@yahoo.com.br.
[1 de 3] Notas introdutórias
A presente escrita é um rastro-testemunho do processo de criação da instalação cênica água, flores e anjinhos, desenvolvida no laboratório de pesquisa Vocalidades Poéticas [1], no Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará (UFC), que aqui toma forma de um caderno de processo no qual a processualidade da criação em voz ganha outras ressonâncias de sentidos. O laboratório de criação partiu das seguintes questões: que vocalidade poética podemos encontrar, como chave de ignição da linguagem cênica, com toda a sua singularidade e traços de coletividade? Como os rastros de histórias, culturas, subjetividades se engendram no fluxo da memória corpórea criando vocalidades a partir da rede de relações tramadas no ambiente de criação? Como podemos pensar em um ambiente de aprendizagem vocal que potencialize a voz enquanto lugar de singularidades?
Acreditamos que o exercício de grafar no corpo da escrita as marcas que ficam do processo de criação, marcas que insistem em continuar a pulsar, como ecos que atravessam temporalidades pedindo passagem para outras ressonâncias, pode fazer eclodir no leitor potências de vozes da voz, na ação de experimentar sem os engessamentos dos manuais fixos. Aqui trazemos a relevo frestas do modo como cada um de nós está em um constante fazer-conhecer o mundo e a nós mesmos. Ouvimos as vozes que estão em constante processualidade em nós, em fricções de nossa ancestralidade contemporânea, que mexe com o corpo da voz, com forças vivas de memória recriadas pelo presente. O que encontraremos no caderno de processo é uma encruzilhada que vai sendo construída/inventada pelo ato de caminhar, e, nesse percurso, encontramos técnicas, referências teóricas, proposições de criação, pistas a partir do ajuste poético do corpo no espaço, pistas a partir da sonoridade que eram esboçadas com a acústica do espaço. Foi no fazer-conhecer no corpo de alunas-atrizes do ICA/UFC que a vocalidade poética se fez presente nessa pesquisa-criação. Esta foi ganhando corpo também no ato de escrever, na palavra escrita no diário de bordo de cada uma das alunas, mostrando como a vocalidade poética é singular e ao mesmo tempo múltipla, inacabada, movente.
O processo nos mostra um conhecimento vocal infinito. O processo de criação dá voz à inventividade das vozes, das pessoas que compõem um coletivo de trabalho, uma sala de aula, um espaço de ensaio. O processo suscita o levantar perguntas no exercício do pesquisar, investigar no próprio corpo proposições que potencializem a existência de vidas sonoras. Em água, flores e anjinhos, inventamos, conhecemos, experimentamos uma sonoridade sertaneja transfigurada no imaginário em movimento e materializada em cada corpo-vocal. Corpo este disposto a outras escutas, outros olhares, outras relações de contato, sem os ditames do já autorizado, determinado, convulsionando outros encontros no corpo sensorial, uma outra percepção do si mesmo vocal.
A partir do momento em que a propriocepção1 que nos orienta no espaço desequilibra-se completamente, o imaginário que move os sentidos é solicitado (GODARD, 2004, p. 76).
No laboratório "vocalidades poéticas", que se desdobrou na instalação cênica água, flores e anjinhos realizada no Teatro Universitário da UFC, instigamos a experiência do desequilíbrio da nossa propriocepção em relação ao ambiente do qual fizemos parte, por meio da abertura de camadas perceptivas do corpo-vocal. Uma imersão na plurissensorialidade fluida do processo de criação, da ambiência sonora, fazendo surgir na cena diferentes texturas sonoras: rugosas, líquidas, atravessadas pela memória, pela vocalidade-bicho, tecendo encontros afetivos. Uma escuta recíproca que deixou marcas em mim, sinais que ecoam no exercício da ambiência sonora da cena.
Como vestígios deixados no caminho por um bicho, apresento a seguir um testemunho desse processo de criação, rastros de uma vocalidade poética que ainda ecoam no meu corpo-pesquisa. Uma condensação de imagens, conceitos, sonoridades, texturas... na sua força vibrátil, movente, tentando me dese-
qui-
librar na folha,
a partir das vivências laboratoriais vivenciadas com as alunas-artistas-pesquisadoras no processo de água, flores e anjinhos,
como um rastro.
[2 de 3] Caderno de processo
[3 de 3] Referências
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Ed. Max Limonad, 1984.
DAUGHTY, J. Martin. Call and response (or the lack thereof): atmospheric voices and distributed selves. A Journal for Experiments in Critical Media Practice, Critical Media Practice Program at Harvard University- CMP, 2021.
DENYS, João. Flores D’América. Recife: UFPE, SESC Pernambuco, 2005.
GIL, José. Movimento total: o corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2013.
GODARD, Humbert. Olhar cego. In: CATÁLOGO LYGIA CLARK. Da obra ao acontecimento. Somos o molde. A você cabe o sopro. Organizado pelo Musée de Beaux-Arts de Nantes/e pela Pinacoteca de São Paulo. Curadoria de Suely Rolnik e Corinne Desirens. 2004.
NOVARINA, Valère. Diante da palavra. Rio de Janeiro: 7Letras 2009.
RANGEL, Juliana. Voz em estado de escuta: por uma pedagogia em vocalidades poéticas no ambiente da cena. 2014. 198 f. Tese (Doutorado em educação brasileira - eixo ensino de música) - Universidade Federal do Ceará, 2014.
ROLNIK, Suely. O corpo vibrátil de Lygia Clark. Folha de São Paulo, São Paulo, 2000. Caderno Mais.
ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva Ético/Estético/Política no trabalho acadêmico. Caderno de Subjetividade, São Paulo, v. 1, n. 2, 1993.
ZUMTHOR, P. Escritura e nomadismo: entrevistas e ensaios. São Paulo: Ateliê editorial, 2005
Nota
[1] O laboratório Vocalidades Poéticas atualmente integra o grupo de pesquisa Labcenas ICA/UFC e foi criado para desenvolver o processo de criação da pesquisa de doutorado da autora do presente texto (RANGEL, 2014). Desse laboratório, resultou água, flores e anjinhos, experimento cênico-vocal inspirado nos coros de mulheres do texto Flores D’América, do dramaturgo potiguar e teórico teatral João Denys. água, flores e anjinhos teve o formato de uma instalação cênico-performativa audiovisual. O laboratório contou com a participação de Roberta Bernardo, Angela Deyva, Gabriela Araruna, Raquel Capelo Hylnara Vidal, alunas-atrizes, hoje egressas do Curso de Teatro da UFC e também do estudante do curso de Cinema e Audiovisual da UFC, Tarciso Filho. As apresentações e laboratório ocorreram durante os meses de maio a setembro do ano de 2013 e setembro de 2014 no Teatro Universitário Pascoal Carlos Magno da UFC.